Quarenta e cinco dias. A gente achava que ia ser muito. Foi pouco.
Tokyo não é uma cidade que você visita. É uma cidade que te engole, de um jeito bom, tipo quando você mergulha numa série nova e quando percebe já são 3 da manhã. Cada bairro é um universo. Cada rua tem uma surpresa escondida. Mesmo depois de 45 dias morando lá, a gente ainda descobria lugar novo toda semana.
Fomos pro Japão querendo testar trabalho remoto do outro lado do mundo. Voltamos querendo morar lá. Sério. Já tá nos planos voltar.
Onde ficar
Primeiro: esquece Airbnb no Japão. A regulamentação apertou muito nos últimos anos e as opções boas sumiram. A gente usou a Sumyca, uma plataforma japonesa de aluguel por temporada com apartamentos de verdade, mobiliados, contratos flexíveis de 1 a 3 meses. Muito melhor que hotel ou Airbnb pra quem vai ficar mais de 2 semanas.
Shimokitazawa: O favorito dos nômades, e nosso também. Ruas sem carro, cafezinhos indie em cada esquina, lojinhas vintage, bares escondidos. Parece uma vila dentro da metrópole. É o bairro que mais aparece nas recomendações de quem realmente morou em Tokyo. ¥110.000-170.000. Se a gente voltasse, ficaria aqui.
Shinjuku: Onde a gente ficou. Caótico, sim, mas de um jeito funcional. Tudo converge pra cá, a estação tem mais de 3 milhões de pessoas por dia e mesmo assim funciona como relógio. Restaurantes infinitos, konbinis em cada esquina, acesso direto a qualquer linha de metrô e trem. Pela Sumyca: ¥150.000-300.000/mês dependendo do tamanho (o nosso, mais espaçoso, custou ¥300.000).
Koenji: A versão mais crua e barata de Shimokitazawa. Energia punk, bares minúsculos, lojas de vinil, vintage mais acessível. Quem quer espaço e personalidade sem pagar preço de bairro da moda escolhe aqui. A 10min de Shinjuku pela Chuo Line. ¥90.000-140.000.
Nakameguro: Estiloso e calmo. Ruas ao longo do canal do rio Meguro cheias de barzinhos, restaurantes e cafés. Ótimo pra quem quer estética e caminhabilidade sem o caos de Shibuya (que fica a uma estação). ¥130.000-190.000.
Ebisu: Uma estação de Shibuya mas com outra energia. Mais refinado, mais tranquilo, mais adulto. Bons restaurantes, perto dos coworkings de Shibuya sem o barulho. Muito recomendado por expats. ¥140.000-200.000.
Kichijoji: Fora do centro mas amado por quem mora. Parque Inokashira, cafés de bairro, brechós, ritmo mais devagar. Toda a conveniência sem multidão de salarymen. Se você não precisa estar no centro todo dia, é uma escolha excelente. ¥90.000-150.000.
Asakusa: Lado leste, mais tradicional, mais barato. Rio Sumida, festivais constantes, restaurantes escondidos em cada viela. Bom se você quer sentir o Japão antigo no dia-a-dia sem pagar caro. ¥90.000-140.000.
Evite se possível: Kabukicho à noite é intenso (red light district de Shinjuku). Pra visitar é seguro, pra morar é barulhento. Roppongi é caro e genérico, área de escritórios e expats sem personalidade. Áreas muito afastadas como Tama ou Machida ficam longe demais. O metrô é eficiente mas 1h de trem todo dia cansa.
Trabalhar de Tokyo
Internet: Absurdamente boa. Os apartamentos da Sumyca tinham fibra de 500mbps a 1gbps. A gente fazia call de vídeo sem travar nunca. Wi-Fi pocket (aluguel no aeroporto, ¥6.000-9.000/mês) funciona bem como backup. Celular: compre um eSIM da Ubigi ou Airalo antes de ir.
Coworkings:
- .andwork (Shibuya): ¥16.000-34.000/mês dependendo do plano. 300mbps de wifi. O mais recomendado por nômades que passaram por Tokyo.
- CASE Shinjuku (pertinho da estação): ¥2.000/dia drop-in. Staff fala inglês, flexível, sem contrato.
- Creative Lounge MOV (Shibuya Hikarie, 8º andar): ¥2.750/dia sem contrato. Raro em Tokyo.
- BLINK (Roppongi): ~¥30.000/mês, 24h, pet-friendly, café no térreo.
- S-Tokyo (Nihonbashi): ~¥30.000/mês, faz meetups pra nômades, tem rooftop.
A gente trabalhou mais de casa do que de coworking. O apartamento tinha mesa boa, cadeira boa, internet rápida, ar condicionado. Vista da janela já valia o dia.
Cafés pra trabalhar:
- Valley Park Stand (Miyashita Park, Shibuya): 120mbps, quase todas as mesas com tomada, sem limite de tempo. Almoço ¥1.450-1.850.
- Trunk Bar Lounge (Trunk Hotel, Shibuya): 360mbps, tomadas nas mesas de trabalho, sem limite. Iced latte ¥950.
- Streamer Coffee (Shibuya/Nakameguro): Sem limite de tempo, tomadas nos bancos altos. Cold brew ¥750. Aceita laptop sem cara feia.
- Doutor Coffee (em todo canto): Baratinho (¥300 o café), wifi, tomada. O "padaria de esquina" do Japão. Não é chique mas resolve.
- Tully's Coffee: Mesma vibe do Doutor, igualmente espalhado.
Dica: procure "カフェ ワイファイ" no Google Maps pra achar cafés com wifi perto de você. Meio-dia costuma ser o horário mais vazio. Atenção: kissaten (cafeterias tradicionais japonesas) NÃO são laptop-friendly. Nem tente. Cuidado também com cafés que permitem fumar dentro. No Japão, fumar é proibido na rua mas liberado em muitos estabelecimentos fechados.
Dia-a-dia de um nômade digital
Supermercados e konbinis: Konbini (7-Eleven, Lawson, FamilyMart) viram sua segunda casa. Comida pronta boa e barata: onigiri ¥130-160, bentô ¥500-700, sanduíche ¥300-400, café gelado ¥150. Pra compras maiores: Life, OK Store, Seiyu (mais barato, mesmos produtos custam até 40% menos que no konbini), Don Quijote (caos organizado, tem de tudo). ¥40.000-60.000/mês cozinhando em casa (por pessoa).
Comer fora: Aqui o Japão brilha. Ramen de qualidade por ¥700-1.200. Gyudon (carne com arroz) no Yoshinoya ou Matsuya por ¥450-500. Kaiten sushi (esteira) por ¥1.500-2.500. Izakaya (bar japonês) com comida e bebida: ¥2.000-4.000/pessoa. Restaurante mais chique: ¥5.000-10.000. Dá pra comer incrivelmente bem gastando ¥3.000-5.000 por dia. Ou gastar uma fortuna se quiser.
Transporte: Compre um Suica ou Pasmo (cartão recarregável) no primeiro dia. Metrô e trem cobrem a cidade inteira. ¥10.000-15.000/mês se você andar bastante. Taxi é caro (¥700 bandeirada) mas às vezes vale à noite. Bicicleta: Tokyo é surpreendentemente boa pra pedalar, plana em muitos bairros e motoristas respeitam ciclistas.
Segurança: A gente andou por Tokyo de madrugada. Em tudo que é bairro. Nunca sentiu medo. Nem uma vez. É provavelmente a cidade mais segura do mundo. Você esquece carteira no trem e ela volta pra você. Não estou exagerando, aconteceu com um amigo nosso.
O que ninguém te conta
A barreira do idioma é real. Fora das áreas turísticas, pouquíssima gente fala inglês. Google Translate com câmera vira sua ferramenta de sobrevivência. Cardápios, placas, máquinas de lavar, tudo em japonês. Depois de umas 2 semanas você pega o básico do katakana e hiragana. Ajuda muito. E os endereços não seguem lógica nenhuma. Google Maps é essencial, você VAI se perder constantemente.
Solidão pode bater forte. Tokyo é paradoxal: 14 milhões de pessoas e você pode se sentir completamente sozinho. A cultura japonesa é reservada, fazer amizade leva tempo. Meetups internacionais ajudam, procure no Meetup.com ou no Tokyo Internationals. A gente se sentiu sozinho nas primeiras semanas. Depois melhorou.
Lixo é uma experiência. Não existe lixeira na rua. Nenhuma. Você carrega seu lixo até achar uma no konbini ou até chegar em casa. A separação é rígida: combustível, plástico, PET, vidro, papel, cada um num dia diferente. Leva uns 3 dias pra entender, depois vira automático.
Fuso horário com o Brasil é brutal. +12h (ou +13h no horário de verão). Se sua empresa é brasileira, suas reuniões são de madrugada ou cedinho. A gente acordava às 6h pra pegar reunião das 18h do Brasil. Funciona, mas cansa. Se seu time é europeu ou americano, o encaixe é melhor.
Tudo é pequeno. Apartamentos, elevadores, banheiros (apesar de super tecnológicos), restaurantes. Você se acostuma rápido mas no começo estranha. Malas grandes são um pesadelo no metrô.
Dinheiro vivo ainda importa. Muitos lugares pequenos, especialmente restaurantes tradicionais e ramen shops, só aceitam cash. Sempre tenha ¥10.000-20.000 em espécie. Konbinis têm caixa eletrônico que aceita cartão internacional (7-Eleven é o mais confiável).
"Wi-Fi grátis" nem sempre é grátis. Muitas placas de free wifi só funcionam se você tem plano de celular japonês. Não confie nisso pra trabalhar. Tenha sempre seu eSIM com dados como backup.
Moradia pra estrangeiro é complicada. Muitos proprietários recusam estrangeiros, especialmente sem visto de residência. Com o visto de nômade digital, você não consegue abrir conta em banco nem assinar contrato padrão de aluguel. Por isso a Sumyca e sharehouses funcionam tão bem pra quem tá de passagem.
Teishoku é o hack de comida. Restaurantes de teishoku (refeição completa: prato + arroz + missoshiru + acompanhamentos) oferecem refil ilimitado de arroz e missoshiru. Você almoça MUITO bem por ¥800-1.000. A gente descobriu isso na segunda semana e nunca mais parou.
Reserve moradia com antecedência. Março-abril é temporada de mudança e cerejeiras. Tudo lota e os preços sobem. Se possível, feche pelo menos 2-3 meses antes.
Custos (casal, 2026)
- Apartamento Sumyca (espaçoso, Shinjuku): ¥300.000/mês (~R$ 10.000)
- Mercado/konbini: ¥80.000-120.000/mês (~R$ 2.700-4.000)
- Comer fora (4-5x/semana): ¥70.000-100.000/mês (~R$ 2.400-3.400)
- Transporte (Suica): ¥25.000-35.000/mês (~R$ 850-1.200)
- Contas (luz, água, internet): incluídas no aluguel pela Sumyca. Fora da Sumyca, espere ¥20.000-35.000/mês à parte
- Coworking: ¥0 (trabalhamos de casa)
- Lazer (templos, day trips, drinks): ¥30.000-60.000/mês (~R$ 1.000-2.000)
- eSIM/internet móvel: ¥5.000/mês (~R$ 170)
Total: ¥510.000-620.000/mês (~R$ 17.000-21.000 pro casal)
Por pessoa: ~R$ 8.500-10.500/mês
A gente escolheu um apartamento maior e mais confortável. Dava pra economizar bastante pegando algo menor (¥150.000-200.000). Aí o total cai pra ~R$ 13.000-16.000 pro casal. Quem mora sozinho num studio de ¥95.000-120.000 e cozinha bastante em casa pode gastar entre R$ 7.000-9.000/mês tranquilo.
É mais caro que o Sudeste Asiático? Sim. Mas pra padrão de primeiro mundo, com essa segurança, transporte e comida? É honesto. E com o yen desvalorizado, o Japão talvez seja o país desenvolvido mais acessível do mundo pra quem ganha em dólar ou euro. Mais barato que Londres, Paris ou Zurich, disparado.
Rotina típica
6h-7h: Acorda. Café no konbini (¥150, surpreendentemente bom) ou chá em casa. Às vezes reunião com o Brasil nesse horário.
7h-12h: Trabalho. Mesa do apartamento, janela aberta, Tokyo acordando lá fora. Concentração máxima de manhã, o silêncio japonês ajuda demais.
12h-13h30: Almoço. Desce pro ramen da esquina (¥800) ou faz bentô em casa. Às vezes explora um bairro novo e almoça por lá.
13h30-18h: Volta pro trabalho. Tarde é mais tranquila, menos calls.
18h-19h: Caminhada. Tokyo é uma cidade pra andar. 10.000 passos por dia sem nem tentar. Anda pelo bairro, descobre uma rua nova, para num templo escondido.
19h30-21h: Jantar. Izakaya, yakiniku, sushi, curry japonês, cada dia um universo diferente. Às vezes konbini bentô e Netflix. Sem vergonha nenhuma.
21h+: Tokyo não pressiona você a sair. Mas se quiser: Golden Gai (micro-bares em Shinjuku), Shimokitazawa (bares alternativos), Ebisu (mais chill). A gente saía 2-3x por semana.
Final de semana? Dia em Kamakura (praia + Buda gigante, 1h de trem), Hakone (onsen com vista pro Monte Fuji), Nikko (templos na montanha), ou simplesmente se perder em bairros que ainda não conhecia. Em 45 dias não faltou o que fazer. Nem perto.
Melhor época pra ir
Março-Maio: Cerejeiras em flor (hanami) em março-abril. Temperatura perfeita (15-22°C). A época mais bonita. Mas preços sobem e tudo lota na golden week (final de abril, início de maio).
Outubro-Novembro: Outono. Folhas vermelhas e amarelas, clima agradável (12-20°C), menos turista que primavera. Nossa recomendação pra quem quer curtir sem multidão.
Junho-Setembro: Verão. Junho é tsuyu (estação chuvosa), úmido e chato. Julho-Agosto: quente demais (32-38°C com umidade altíssima). Festivais de verão são incríveis mas o calor é punitivo. Setembro melhora.
Dezembro-Fevereiro: Inverno. Frio (2-10°C) mas seco e ensolarado. Iluminações de Natal lindas. Onsens (fontes termais) ficam ainda melhores. Mais barato e vazio. Se você aguenta frio, é época ótima.
A experiência Sumyca
Vale um parágrafo à parte porque fez MUITA diferença. Sumyca não é hotel, não é Airbnb. É um serviço japonês de aluguel por temporada com apartamentos reais, mobiliados, com cozinha completa, máquina de lavar, e tudo que você precisa pra morar de verdade.
O processo: reserva online, tudo em inglês, contrato flexível. Chegamos, pegamos a chave num key box, pronto. Apartamento limpo, internet funcionando, instruções detalhadas (incluindo como separar o lixo).
Comparado com hotel: gastamos provavelmente 60% menos e tivemos muito mais conforto. Cozinha salvou a gente de gastar ¥3.000/dia em restaurante. Máquina de lavar significou mala menor. E morar num prédio residencial japonês, com vizinhos japoneses, fez a experiência ser completamente diferente de turismo.
Vale a pena?
A gente já foi pra muitos lugares. Portugal, Croácia, Nordeste do Brasil. Cada lugar tem seu encanto.
Mas Tokyo foi diferente.
É difícil colocar em palavras. A combinação de eficiência absurda com beleza sutil. De modernidade radical com tradição intocada. De 14 milhões de pessoas que respeitam seu espaço. De comida que custa ¥800 e parece que custou ¥8.000.
A gente saiu de lá querendo voltar. Não "um dia quem sabe". Voltar de verdade. Já tá na planilha, já tá no calendário. Foi a experiência de uma vida, e a gente quer repetir.
Se você trabalha remoto e tem condição de ficar pelo menos 3-4 semanas, vai. Não como turista correndo entre pontos turísticos. Vai pra morar. Pra ter seu konbini favorito, seu ramen shop de confiança, seu caminho de casa. É outro nível.
Resumo rápido
| Item | Observação/Nota |
|---|---|
| Gasto médio/mês | R$ 8.500-10.500 (1 pessoa) |
| Melhor época | Mar-Mai, Out-Nov |
| Tempo recomendado | 4-8 semanas (mínimo 3) |
| Internet | ⭐⭐⭐⭐⭐ |
| Segurança | ⭐⭐⭐⭐⭐ |
| Custo-benefício | ⭐⭐⭐⭐☆ |
| Vida social | ⭐⭐⭐☆☆ |
| Slow travel | ⭐⭐⭐⭐⭐ |
Ficou alguma dúvida?
Tokyo é uma cidade que merece ser vivida, não só visitada. Se você tá pensando em ir, se tá com medo do idioma, do custo, de ficar sozinho do outro lado do mundo, a gente entende. A gente também teve tudo isso. E foi mesmo assim.
Qualquer dúvida sobre Tokyo, Japão, Sumyca ou nomadismo digital em geral, manda mensagem pra gente no Instagram @chegaderoteiro. A gente responde tudo por lá!


