Um mês na França
Guia de País

Um mês na França

A gente tinha medo da França. Medo do idioma, da fama de grosseria, do preço. Passamos um mês entre Paris e Lyon e saímos mais gordos, mais apaixonados e com vontade de voltar. Aqui vai tudo que aprendemos.

A gente tinha medo da França. Medo real. Todo mundo fala que francês é grosso, que se você não fala o idioma nem tente, que Paris é suja e cara. A gente quase desistiu antes de ir.

Que bom que não desistimos.

Passamos um mês no país, entre Paris e Lyon, e o que encontramos foi o oposto do estereótipo. Pessoas que abriam um sorriso depois de um "bonjour", boulangeries que mudaram nosso padrão de café da manhã pra sempre, uma infraestrutura que funciona de verdade, e comida. Muita comida. Absurdamente boa.

A França não é barata. Não é fácil de cara. Mas se você dá tempo pro país se revelar, sem pressa, sem check-list de pontos turísticos, ele te recompensa como poucos lugares.

Vista de Lyon com os dois rios e a colina de Fourvière ao fundo
Vista de Lyon com os dois rios e a colina de Fourvière ao fundo

Onde ficar

A França tem opções pra todos os bolsos e estilos. A gente conheceu duas cidades e já dá pra ter uma boa ideia da variedade.

Paris: A capital. Tem tudo: museus, metrô impecável, coworkings, vida cultural absurda. Mas é cara (apartamento 1 quarto: €1.200-1.800) e achar moradia por mais de um mês é estressante. Melhor pra quem quer energia de cidade grande e não se importa de pagar mais. A gente ficou uma semana e já tá planejando voltar pra ficar mais.

Lyon: Nossa surpresa favorita. Capital gastronômica da França (de verdade, não é marketing). Mais barata que Paris (apartamento: €800-1.200), internet excelente, compacta, caminhável. Ficamos 14 dias e saímos com vontade de morar. Se você quer uma base na França com qualidade de vida e sem o caos de Paris, Lyon é a resposta.

Bordeaux: Cidade bonita, com cena de vinhos absurda, bairros charmosos e um ecossistema de coworkings crescente (destaque pro Darwin Ecosystem, num antigo quartel militar). Clima mais ameno que o norte. Custo intermediário entre Paris e Lyon.

Nice e a Riviera Francesa: Sol o ano inteiro (300+ dias de sol), mar, e uma vibe mediterrânea que lembra um pouco o sul do Brasil. Inglês mais falado que na média francesa. Boa pra quem quer praia + trabalho remoto. Cuidado: no verão lota.

Montpellier: Jovem, universitária, barata pelos padrões franceses, clima mediterrâneo. Boa opção pra quem quer sul da França sem o preço da Riviera.

Strasbourg: Na fronteira com a Alemanha. Charme de cidade medieval, custo 30% menor que Paris, e uma mistura cultural franco-alemã única. No inverno tem um dos melhores mercados de Natal da Europa.

Pra quem quer interior: Dordogne (vilas medievais, natureza), Provence (lavanda, vinhos, ritmo lento), Alsácia (vilas de conto de fada). Menos infraestrutura de coworking, mais alma.

Dia-a-dia prático

Comida: Supermercados são bons e variados. Lidl e Aldi são os mais baratos, Carrefour é o meio-termo, Monoprix é o mais caro mas com qualidade superior. €250-350/mês cozinhando em casa (por pessoa). Mas o destaque são os marchés (feiras de rua): produtos frescos, preços melhores que supermercado, especialmente perto do horário de fechar.

Comer fora: almoço executivo (formule/plat du jour) por €12-18, jantar casual €20-35/pessoa, restaurante bom pra dois com vinho €70-100. Croissant na boulangerie: €1-1,50. Café expresso: €1,50-3.

E os bouillons em Paris (restaurantes tradicionais com preço popular) servem refeição completa por €20-25. O Bouillon Pigalle e o Bouillon Chartier são ótimos.

Transporte entre cidades: O trem é rei na França. O TGV (trem de alta velocidade) conecta as principais cidades em tempos absurdos: Paris-Lyon em 2h, Paris-Bordeaux em 2h, Paris-Nice em 5h30, Paris-Marseille em 3h15.

Dica de ouro: compre com antecedência no SNCF Connect. Mesma rota pode custar €25 (comprando meses antes) ou €140 (no dia). O OUIGO é a versão low-cost do TGV, com passagens a partir de €10-19. Menos confortável, mas funciona.

Trens regionais (TER) são mais lentos e baratos, bons pra bate-volta. Jovens até 27 anos podem pegar o cartão de desconto SNCF (30% off o ano inteiro).

Transporte local: Metrô em Paris (€90,80/mês com o passe Navigo, que inclui TUDO: metrô, ônibus, tram, RER, ida pros aeroportos e Versailles). Em Lyon, passe TCL: €75,90/mês. Bike sharing funciona bem nas duas cidades.

Segurança: A França é segura no geral. Violência contra turista é rara. O problema é pickpocket, especialmente em Paris (metrô linhas 1 e 6, Torre Eiffel, Montmartre, Châtelet-Les Halles) e em Lyon (tram T2, Vieux Lyon). Bolsa na frente, celular no bolso, mochila fechada. Golpes comuns em Paris: petição falsa, anel de ouro, pulseira da amizade. Diga "non" e ande.

Protestos e greves fazem parte da cultura francesa. Podem afetar transporte. Cheque as notícias antes de sair.

Idioma: Aqui vai a verdade que ninguém te conta: francês não é obrigatório, mas "bonjour" é. A gente descobriu na prática. Entre em qualquer lugar, diga "bonjour", e a pessoa abre. Sem bonjour, você é invisível. Depois de entender isso, todas as nossas interações foram incríveis.

Em Paris, Lyon, Nice e na Riviera, muita gente fala inglês (especialmente jovens e quem trabalha com turismo). No interior e em cidades menores, inglês é mais raro. Aprenda: "bonjour", "merci", "s'il vous plaît", "l'addition" (a conta), "parlez-vous anglais?" e você resolve 90% das situações.

Internet: A França é top 3 mundial em velocidade de internet fixa. Fibra é padrão nas cidades grandes: 100-500 Mbps fácil. Lyon foi ranqueada como a melhor cidade do mundo em velocidade de internet. Até em cidades menores, a fibra está chegando rápido graças a investimento do governo.

Wifi em cafés é outra história: média de ~2 Mbps em Lyon, e muitos cafés tradicionais de Paris proíbem laptop. Trabalhe do apartamento ou de coworking.

Celular: Chip pré-pago da Free Mobile: 140 GB por €10,99/mês. Melhor custo-benefício. Orange tem opções turista (12 GB por €19,99, 14 dias). Compre na cidade, não no aeroporto (mais caro).

Coworkings: Paris tem 250+ opções. Anticafé (€5/hora, café incluso) é o melhor custo-benefício. Em Lyon, Now Coworking (€249/mês) e La Cordée (a partir de €35/mês + €3/hora). Bordeaux tem o Darwin Ecosystem. Nice tem o Nicecowork. Preço médio no país: €150-300/mês.

Saúde: Em emergência, ligue 15 (SAMU). Hospitais atendem qualquer pessoa, independente de nacionalidade ou seguro. Consulta de emergência: €25. Diária hospitalar: €20. Mas tenha seguro viagem com cobertura mínima de €30.000 (exigência do Schengen). O sistema de saúde francês é um dos melhores do mundo.

O que ninguém te conta

O "bonjour" muda tudo. A gente já falou isso, mas vale repetir porque é a dica mais importante desse guia. A fama de francês grosso existe porque turista entra em loja falando inglês direto. Comece com "bonjour" e tudo muda. Em Lyon, as pessoas foram incrivelmente pacientes com nosso francês quebrado.

A França fecha. Restaurantes servem almoço entre 12h e 14h. Ponto. Chegou 14h15? Cozinha fechou. Jantar só a partir das 19h30. Domingo a maioria dos comércios fecha. Agosto inteiro muitos restaurantes fecham pra férias dos donos. Planeje.

Paris é suja. A cidade recolhe 3.000 toneladas de lixo por dia e mesmo assim tem lixo na calçada, bituca de cigarro, cocô de cachorro. 44% dos próprios parisienses reclamam. Não é exagero, é realidade. Lyon é bem mais limpa.

Apartamento em Paris é guerra. Taxa de vacância de 1-2%. Donos pedem documentação absurda, fiador francês às vezes. Pra estadias de 1-3 meses, use Spotahome, Flatio ou Paris Attitude. E desconfie de preço bom demais: estúdio de 25m² abaixo de €1.000 em Paris provavelmente é golpe.

Greve é cultura. Transporte pode parar. Manifestações podem fechar ruas. Faz parte. Tenha sempre um plano B.

O inverno é cinza de verdade. Dezembro a fevereiro no norte da França: frio (0-8°C), neblina, céu cinzento por semanas. Se você vem do Brasil, pode pesar no ânimo. O sul (Nice, Montpellier, Marseille) tem inverno mais suave (10-15°C, com sol).

Bouchon fake existe. Em Lyon, nem todo restaurante com toalha xadrez é bouchon de verdade. Procure o selo "Les Bouchons Lyonnais". Em Paris, evite restaurantes com cardápio em 8 idiomas e fotos da comida na porta.

Café de rua não é escritório. Muitos cafés tradicionais não têm wifi e proíbem laptop. Isso é cultural, não descaso. Se você precisa trabalhar, vá de coworking ou cafés laptop-friendly específicos.

O garçom não vai até você. Não é falta de atenção, é respeito ao seu tempo. Na França, a mesa é sua pelo tempo que quiser. Pra pedir a conta, você sinaliza: "l'addition, s'il vous plaît". Se ficar esperando que venham te oferecer, vai ficar sentado a noite inteira.

Menos cidades, mais tempo. A gente aprendeu isso na prática e todo mundo que fica mais de 3 semanas na França concorda: quem tenta ver tudo se arrepende, quem fica mais tempo em poucos lugares volta querendo mais. Resista à tentação de preencher o roteiro.

Custos reais

Cada cidade tem custos bem diferentes, então detalhamos tudo nos guias específicos:

  • Paris: ~€2.900-4.300/mês (casal) ou R$ 18.000-26.700
  • Lyon: ~€2.330-3.600/mês (casal) ou R$ 14.400-22.300

No geral, Lyon é 20-30% mais barata que Paris em quase tudo: aluguel, transporte, comer fora. O sul da França (Nice, Montpellier) fica entre os dois.

Dá pra gastar menos morando em bairros mais afastados, cozinhando mais e cortando coworking. Dá pra gastar mais comendo em bouchons todo dia (tentador, acredite).

Visto e burocracia

Brasileiro não precisa de visto pra entrar na França. O passaporte brasileiro dá direito a 90 dias dentro do período Schengen (90 dias a cada 180 dias), o que cobre a França e outros 29 países europeus.

O sistema ETIAS já é obrigatório desde 2026. É um cadastro online (não é visto), custa €7 e vale por 3 anos. Processo rápido, mas faça antes de viajar.

Seu passaporte precisa ter validade mínima de 3 meses além da data de saída e não pode ter mais de 10 anos de emissão.

Importante sobre trabalho remoto: Desde junho de 2025, a França proibiu oficialmente o trabalho remoto com visto de turista, mesmo que você trabalhe para empresas estrangeiras. Na prática, ninguém vai te fiscalizar no seu apartamento, mas é bom saber que a regra existe. A França não tem visto de nômade digital como Portugal ou Espanha. Pra quem quer ficar mais de 90 dias, as opções são o visto Talent Passport (profissionais qualificados) ou o Profession Libérale (autônomos com clientes fora da França).

Seguro viagem com cobertura mínima de €30.000 é exigência do Schengen. Pode ser cobrado na imigração (raro, mas acontece).

Melhor época pra ir

Maio-Junho: Nossa recomendação. Temperatura agradável (18-25°C), dias longos (sol até 22h em junho!), terraços abertos, cidades vivas sem o caos do verão. Perfeito pra ficar semanas.

Setembro: Turistas foram embora, temperatura ainda boa (18-22°C), cidades funcionais. Excelente pra quem quer tranquilidade.

Julho-Agosto: Verão. Quente (25-35°C, ondas de calor podem passar dos 40°C). Julho é lotado. Agosto é curioso: muitos franceses viajam e restaurantes fecham pra férias. Paris fica mais vazia, o que pode ser bom ou ruim.

Outubro-Novembro: Outono. Cores lindas, temperatura caindo (10-18°C). Mais barato e mais vazio.

Dezembro: Se for no inverno, vá no começo de dezembro. Lyon tem a Fête des Lumières (Festival das Luzes, geralmente 5-8 de dezembro), com instalações luminosas, projeções em prédios e shows de drone. Gratuito. 3-4 milhões de visitantes. Strasbourg tem um dos melhores mercados de Natal da Europa. Reserve hospedagem com antecedência.

Janeiro-Março: Frio, cinza, úmido (especialmente no norte). Mais barato. Sul da França tem sol mesmo no inverno. Só se você curte inverno europeu.

Vale a pena?

A França foi uma das melhores experiências de viagem que a gente já teve. E olha que a gente foi com medo.

O país funciona. O trem é pontual, a internet é absurda, o sistema de saúde é sério, e a infraestrutura de transporte público é melhor que quase qualquer lugar que a gente já morou.

A comida é honestamente insana. Não tem como passar um mês na França e não sair diferente. As boulangeries, os bouchons, os marchés, o vinho de mesa a €3 que é melhor que vinho caro no Brasil. A gente comeu croissant todo dia. Todo dia. Sem culpa.

O lado difícil: não é barata, o idioma intimida no começo, achar apartamento em Paris é estressante, e o inverno no norte é pesado. Veja os custos detalhados nos guias de Paris e Lyon.

Mas a barreira do idioma? Desaparece com um "bonjour". A fama de grosseria? Mito (ou pelo menos muito exagerado). O preço? Caro, sim, mas você recebe o que paga.

Se você tá pensando em passar mais tempo na Europa e quer um país que combina infraestrutura impecável com cultura absurda e comida que muda sua vida, a França merece estar no topo da lista.

A gente voltaria sem pensar duas vezes. Na verdade, já tá planejando.

Resumo rápido

Item Observação/Nota
Melhor época Mai-Jun, Setembro
Tempo recomendado 3-5 semanas
Internet ⭐⭐⭐⭐⭐
Segurança ⭐⭐⭐⭐☆
Comida ⭐⭐⭐⭐⭐
Infraestrutura ⭐⭐⭐⭐⭐
Custos detalhados Paris, Lyon

Ficou alguma dúvida?

A França é daqueles países que todo mundo acha que conhece por causa dos filmes e dos cartões postais. Mas viver lá, mesmo que por algumas semanas, é completamente diferente. É melhor. Mais real. Mais gostoso.

Se bateu alguma dúvida, quer saber mais sobre como a gente organizou nosso mês no país, ou precisa de dica específica de cidade, manda pra gente no Instagram @chegaderoteiro.

Página de passaporte com carimbos

Precisa de visto?

Sem visto

Não, brasileiros NÃO precisam de visto. Você pode ficar até 90 dias na França com passaporte brasileiro, sem precisar de visto.

Vini e Cami - Criadores do Chega de Roteiro

👋 Oi, somos Vini e Cami!

Um programador e uma editora de vídeo que trocaram a rotina normal por uma temporada viajando o mundo enquanto trabalhavam remotamente. Passamos por mais de 90 cidades e 30 países.

Compartilhamos o aprendizado que o nomadismo digital é possível, que pra viajar não precisa largar tudo pra trás, que viagens mais longas (slow travel) é o nosso estilo de viajar preferido.

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